Por que merecem atenção
Pedem por que não tem outra escolha
E vivem a margem da sociedade por que ninguém faz nada para mudar
No dia 4 de Dezembro de 2009, dia de Yansan e Santa Bárbara aqui em Salvador, eu conheci Seu Antônio. Um senhor de 70 anos, do qual seus traços é de quem tinha um pouco mais. Traços estes que apresentavam cada um deles histórias de alguém quem parecia ter sofrido muito.
Ele estava sentado em lugar no ponto. Eu sabendo que ficaria o dia todo em pé trabalhando, sentei do lado dele. Ele então me pediu uma moeda. Disse que não tinha, e realmente achava que não, mas procurei na bolsa e achei 50 centavos. Senti um breve cheiro de álcool quando ele falou. Mas mesmo assim dei a moeda, até por que ele me pediu para tomar um mingau ou comprar um pão. Foi então que comecei a conversar com ele. Perguntei se ele morava perto, ele disse que morava no final de linha de Brotas, pertinho de onde a gente estava. Então começou a me contar que saiu de casa na noite passada, disse que morava de favor, e que o casal que o acolhia tinha brigado, a mulher havia levado quase todos os móveis da casa. O marido chegou de noite, e não gostou do que “não viu”. Ele perguntou a Seu Antônio o que tinha acontecido, e Seu Antônio respondeu – “Menino, eu também não sei!”-. Ele me falou que sentiu medo do cara o agredir, por isso foi passar a noite fora, e por isso tinha ficado sem café. Perguntei onde estava sua família. Contou-me que estava em Feira de Santana, e que não os via há muito tempo, por conta de brigas, mas preferia cada no seu canto, mesmo que a distância te trouxesse tristeza. Vendo que seus olhos tinham enchido de lágrimas, comecei a conversar de outra coisa no mesmo instante. Falei que estava preocupada com ônibus que até o certo momento não tinha chegado, e que esse atraso todo deveria ser pela comemoração do dia – Sta.Bárbara/Yansan- . Ele concordou comigo. Não sei em que momento a conversa virou para começarmos a falar de comidas que agradava nosso apetite. Lembro dele dizendo que não gostava de comida com azeite de dendê, disse também não curtia, e começamos a rir. Perguntei o que ele ficou fazendo a manhã inteira na rua, ele disse que tinha ido no médico, foi fazer um exame, para poder constatar que tinha uma fratura no pé e poder assim ganhar sua aposentadoria por invalidez, já que o todo trabalho que procurava lhe era negado. Perguntei como tinha acontecido tal coisa. Ele disse que uma lata de tinta tinha caído em cima, ficou seis meses com o pé engessado, sem auxilio desemprego, e que isso tinha afetado toda a vida dele, por isso hoje em dia morava de favor e pedia dinheiro nas ruas para poder comer. Perguntei ha quanto tempo tinha acontecido... E ele me disse que apenas três anos. Fiquei paralisada pelo tempo que ele me informou... Achei que morava nas ruas a mais tempo, mas não. Nessa hora engoli o meu choro e olhei para o lado – disfarçando - parei para pensar em quantas pessoas moram na rua por conta de fatos parecidos, lembre da matéria da Ana Paula Padrão sobre moradores de rua. Pensei nas pessoas que julgam todos como vagabundos, e tive ódio delas.
Foi depois disse que perguntei “Seu Antônio, por que ainda não pegou o busu”. E ele me respondeu “Por que estou conversando com você”. Ele me pediu que se visse um Brotas vindo ele iria embora, reclamou que estava com fome e sono, e que iria para casa quando o próximo ônibus viesse. Sabendo que o ônibus chegaria logo, falei a ele que tivesse fé, pois sua aposentadoria iria chegar, e que ele poderia viver com mais dignidade, falei a ele que se fosse beber que ficasse na cervejinha, e que deixasse a pinga de lado. Ele no mesmo instante disse que não bebia pinga, apenas umas cervejinhas. Eu dei risada, olhei para o lado e disse que o ônibus estava vindo. Ele se levantou, pegou na minha mão e me agradeceu pela prosa. Eu desejei para ele toda sorte do mundo, e ele o mesmo para mim. Ele entrou no ônibus, e se foi.
Algumas pessoas no ponto no momento que comecei a ter uma conversa freqüente com Seu Antônio me olharam torto, outros curiosos se aproximaram, e eu? Bom..não liguei para nenhuma delas. Fiquei no final de tudo, alegre em ter conversado com ele, feliz em ter dado atenção a cada palavra que ele dizia. Feliz em ter feito ele dar gargalhadas com minha gírias...E Feliz de ter tido uma conversa com um quase morador de Rua.
Fica ai a minha dica. Não julgue quem você não conhece, dê a si e a pessoa, a oportunidade de se conhecerem, nem que seja por 40 minutos de conversa, como foi a minha e a de Seu Antônio.
Positividade para Todos. E mandem vibração positiva para Seu Antônio para que ele consiga a sua aposentadoria, coisa que lhe é de direito.




